Postado 15/01/2017 por André Reu em Noticias
 
 

Falta de planejamento e empenho político atrasa desenvolvimento do Litoral


Se você frequenta o litoral paranaense, provavelmente já ouviu falar em grandes obras prometidas ao longo dos anos para “revolucionar” a região e contribuir para o desenvolvimento econômico litorâneo. Ao longo de diversos governos federais e estaduais, projetos que resolveriam gargalos da região foram prometidos, mas acabaram nem saindo do papel ou ficando pelo caminho.

Obras como a Ponte de Guaratuba, a construção de uma nova ferrovia, duplicações de estradas e a recuperação da Praia Central de Matinhos são esperadas pelos paranaenses há anos e ainda não se tornaram realidade.

Para o professor de gestão urbana da PUCPR André Turbay, é preciso elaborar um plano de desenvolvimento de longo prazo para a região litorânea do estado.

“Neste planejamento, as obras e intervenções e suas respectivas prioridades, orçamento e prazo seriam parte da construção de uma realidade pensada para daqui 50 anos, um horizonte de tempo adequado para a efetivação de uma nova região”, afirma.

Para Turbay, é importante estabelecer um plano de desenvolvimento que preveja a estruturação da atividade portuária e melhora da mobilidade da região.

Ferrovia

Um dos exemplos de obras que não saíram do papel é a nova ferrovia prometida para fazer a ligação com o Porto de Paranaguá. A atual ferrovia que liga Curitiba a Paranaguá foi construída em 1985 e há muito se fala na construção de uma nova linha, mais moderna, para facilitar o escoamento da produção do estado. O governo federal chegou a anunciar a construção de um novo trajeto, ligando Maracaju (MS) ao litoral paranaense, mas o projeto acabou ficando para trás.

“Seria uma nova ferrovia em bitola larga, o que permite velocidades de trens a 80 km/h. Hoje nosso trecho é antigo, principalmente nessa parte de Guarapuava até Ponta Grossa, onde a velocidade operacional é da ordem de 11 km/h”, explica o superintendente do Instituto Tecnológico de Transportes e Infraestrutura (ITTI), vinculado à UFPR, Eduardo Ratton. Ele calcula que o investimento seria na ordem dos R$ 10 bilhões para concluir a obra.

Em 2014, o Ministério dos Transportes informou que o trecho não seria uma prioridade e seria o último grupo de ferrovias que teria os estudos feitos. A reportagem entrou em contato com o governo federal, mas não obteve retorno sobre o andamento do projeto.

Teria que ter uma bancada mais atuante [no Congresso] nessa questão da logística do Paraná para que a gente conseguisse investimentos para ferrovias, portos e assim por diante. Se nossa representação política é fraca, vamos continuar ficando por último na fila.

EDUARDO RATTONSuperintendente do Instituto Tecnológico de Transportes e Infraestrutura (ITTI)

Para Ratton, falta empenho político para a realização dessa e outras obras. “Teria que ter uma bancada mais atuante nessa questão da logística do Paraná para que a gente conseguisse investimentos para ferrovias, portos e assim por diante”, diz. “Se nossa representação política é fraca, vamos continuar ficando por último na fila”, avalia.

Ponte de Guaratuba

Outra antiga promessa para o litoral do estado é uma ponte ligando os municípios de Matinhos e Guaratuba. Durante a alta temporada, é muito comum encontrar filas quilométricas de carros esperando para fazer a travessia via ferryboat. A ponte poderia ajudar a resolver esse problema, mas o projeto ainda está em fase embrionária, segundo o governo do estado.

A construção da ponte está prevista na Constituição do Estado desde 1989, mas nem assim tornou-se realidade. Em 2013, o Departamento de Estradas de Rodagem (DER) informou que abriria licitação para que empresas interessadas na construção apresentassem seu projeto. A promessa era que a obra fosse concluída em 2015.

“É totalmente viável, me lembro de estudos que foram feitos há mais de 20 anos que apontavam para essa viabilidade. O que não houve foi uma movimentação mais forte para trazer essa obra”, diz Ratton.

De acordo com a Secretaria de Infraestrutura e Logística (Seil), há estudos técnicos sendo realizados pelo DER e outros órgãos para a construção da ponte e de outro projeto que é uma velha promessa: a extensão da BR-101, passando pelo Paraná.

A PRC-101, que deve fazer parte do mesmo pacote de obras da ponte de Guaratuba, deve facilitar o trânsito de cargas. A ideia é ligar a BR-376 à BR-116. “Todo esse trafego de caminhões que sai de Santa Catarina e vai para São Paulo não precisaria mais passar por Curitiba”, explica Ratton.

Segundo a Seil, um grupo técnico estuda a formatação de um Procedimento de Manifestação de Interesse (PMI), que permite que a iniciativa privada elabore os estudos técnicos e de viabilidade para projetos de Parceria Público Privada (PPP). Ainda não há prazos para que a obra saia do papel.

Estradas

Outra promessa é a duplicação da PR-407, que sai da BR-277 e segue em direção às praias paranaenses. O trecho é de concessão da Ecovia. Segundo o governo do estado, um trecho de 3,5 quilômetros já foi duplicado e o DER tem promovido estudos junto a concessionária para analisar a possibilidade de duplicação de novos trechos. Mais uma vez, sem prazos para conclusão.

A duplicação da PR-412 também já foi prometida ao longo dos anos, assim como a construção de uma nova rodovia, ligando a PR-407 a um novo porto a ser construído em Pontal do Paraná. “Se esse futuro porto se implantar em Pontal, para a economia da região, para a economia do estado, vai ser de grande valia”, alerta Ratton.

De todas as obras, essa parece ser a com mais chances de ser realizada em médio prazo. Segundo a Seil, uma audiência pública está marcada para a próxima segunda-feira (23) para discutir a possibilidade de uma nova faixa de infraestrutura no Litoral paranaense.

Segundo a secretaria, o novo acesso vai contar com uma extensão de 23 quilômetros, entre a rodovia PR-407 até a região de Ponta do Poço, zona portuária do município. “Além da construção de uma nova rodovia, a execução da faixa de infraestrutura visa também revitalizar a rodovia PR-412, que irá se tornar uma avenida urbana, com ciclovia em toda sua extensão, estacionamentos nas laterais, calçadas para pedestres, rotatórias e quatro trechos de ligações entre a PR-412 e a nova rodovia”, diz a secretaria em nota.

Recuperação da praia em Matinhos

Outro projeto parado pelo menos desde 2012 é a engorda da Praia Central de Matinhos. O objetivo é recuperar a areia da praia, que acabou sendo “engolida” pelo mar na região.

Em 2012, o governo estadual perdeu recursos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) destinados para a obra. Seriam investidos pelo governo federal cerca de R$ 12 milhões no projeto, que ficou para trás porque a licitação do projeto executivo não ocorreu dentro do prazo. Segundo o governo do estado, o projeto ainda está de pé e aguarda liberação de recursos federais para acontecer. O governo não comentou a perda dos recursos federais em 2012.

Para Ratton, porém, a obra não será suficiente para resolver o problema da região. “Foi feito já uma vez um engordamento de praia, nos anos 1990, e dois anos depois não tinha mais areia”, lembra.

Para ele, uma solução mais permanente seria a instalação de um quebra-mar. “São estruturas de rocha como foi feito na Praia Mansa de Caiobá, que tem um píer construído em rocha. Se construiu esse esporão para que diminuísse a energia da água. O resultado disso é que a Praia Mansa de Caiobá foi recomposta e hoje está lá”, diz.

“Se não estudar o conjunto do litoral como um todo você acaba criando outros pontos onde pode haver processos erosivos. É preciso fazer um estudo global do litoral”, conclui Ratton.

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