Foi durante a faculdade que o estudante de oceanografia da Universidade Federal do Paraná, Bryan Muller, 30, percebeu as dificuldades enfrentadas no dia a dia pelos pescadores artesanais em Matinhos e Pontal do Paraná. O gargalo principal está na comercialização dos pescados: como conseguir que os atravessadores paguem um preço justo aos pescadores?

 

“Os pequenos pescadores não têm estrutura para estocar grandes quantidades de pescado e não têm acesso a canais de venda direta, por isso sempre dependeram dos atravessadores”, explica Muller. Com a faca e o queijo na mão, os intermediários estabelecem o preço do mercado, o que reverte em valores muito baixos para os pescadores.

 

Em setembro de 2018, a situação de vulnerabilidade desses produtores levou o estudante a criar a Olha o Peixe!, uma empresa com um olho no negócio e outro no impacto sobre pessoas e meio ambiente.

Ao vender seus produtos para a Olha o Peixe!, os pescadores recebem valores bem acima dos praticados pelo mercado. Segundo Bryan, em alguns casos, a renda mensal dos pescadores aumentou em até 200%. Do preço para o consumidor final, 60% do dinheiro vai para o pescador, o restante para a empresa.

“O preço do Bryan é bem melhor que o do atravessador. Minha renda dobrou e não passo mais apertado”, afirma o pescador Henrique Keiki da Silva, 45. A pesca é fonte de sustento para a sua família, que conta com a esposa Jucélia, as filhas Pamela e Sabrina, além de dois tripulantes.

Ele cita como exemplo a cavala – espécie muito comum no inverno. Olha o Peixe! paga R$ 11 o quilo, já um atravessador não compraria por mais do que R$ 6 o quilo, segundo Henrique. No final do mês, diferenças de preço como essa resultam em renda extra significativa para as famílias.

A rotina de Henrique é puxada. Acorda às 5h, toma um café e vai para o mar “atrás do cardume”. Às vezes roda a manhã inteira a bordo de seu barco Pamela Keiki, dedicado à filha, para localizar e cercar os peixes. Num dia de sorte, junto com as redes ele poder puxar mais de 2 toneladas de peixe.

De volta para a terra firme, no começo da tarde, a esposa e as filhas se encarregam de beneficiar o pescado. Lavam, limpam e congelam os produtos que a equipe de Bryan – que hoje conta com dez pessoas – distribui para os clientes em Curitiba e região metropolitana.     

A empresa fornece pessoas físicas e 35 restaurantes – como Quintana Restaurante e Obst. – e um hospital na capital. “Além de gerar impacto positivo sobre a renda das famílias, outro foco é não trabalhar com espécies ameaçadas de extinção”, garante Bryan. Henrique confirma: “Se você aparecer com um peixe que está no [período de] defeso, ele não compra”.

A chef Gabriela Carvalho, do Quintana, é uma entusiasta desde que o projeto foi lançado. “A cadeia da pesca é muitas vezes insustentável e o produto que chega nas nossas mesas tem uma qualidade enfraquecida. Bryan trabalha para reconectar a comunidade pesqueira e nos traz o peixe mais fresco que a gente vai conseguir no mercado”, afirma.

A moqueca de Gabriela é feita com posta de cavala, abundante no litoral paranaense, enquanto que o cação, geralmente usado nesse preparo, é uma espécie ameaçada de extinção. Além disso, peixes que fogem do comum são descobertas saborosas: a chef prepara em seu restaurante a pescada bembeca, levemente empanada na farinha de milho e grelhada com um fio de azeite.

“Bryan elevou a qualidade do nosso peixe graças a um processo de respeito ao meio ambiente, consumidores, atravessadores e pescadores”, diz Gabriela.

Além de abastecer restaurantes, Olha o Peixe! trabalha com encomendas avulsas e clube de assinatura para pessoas físicas. A empresa não tem loja física e atende apenas pelo delivery. São três opções de pacote: o de R$ 45 que dá direito a 1 kg de peixe; o de R$ 60 que vem com 1,5 kg e o de R$ 140 que tem 2 kg. O cliente escolhe qual pescado receber dentro de uma gama de opções.

A safra é anunciada semanalmente nas redes sociais. Nesta época do ano, por exemplo, o mar está cheio de cavala, tainha, linguado e camarão sete barbas. Já pescadinha, carne de siri, bacucu (um tipo de marisco) se encontram o ano inteiro. No verão, o mar é mais generoso ainda: pescadores e clientes fazem a festa com robalo, bagre, salteira, peixe porco e pescada amarela.

Nada é jogado fora durante o beneficiamento. As aparas e a carne que fica entre as espinhas na hora de filetar o peixe são reaproveitadas para fazer coxinhas; siri e camarão também viram hambúrgueres e quiches que são congelados e comercializados pela Olha o Peixe!. A clariana – uma espécie saborosa, mas cheia de espinhas – é preparada na panela de pressão para que as espinhas desmanchem e, em seguida, vira escabeche.

“A importância do projeto é também criar uma nova cultura entre os consumidores e fazer um contraponto à enorme indústria de tilápia e salmão”, diz Bryan.

A zootecnista, Regina Nicodemo Cândido, 57, virou cliente assídua no final do ano passado. “Acho legal apoiar os pescadores. De longe não podemos fazer muita coisa, mas pequenos gestos podem fazer a diferença”, avalia. “Além disso, estou experimentando peixes que eu não conhecia e não sabia cozinhar”, acrescenta.

Para ajudar seus clientes na cozinha, Olha o Peixe! lançou um livro com mais de 60 receitas que ensinam a preparar 22 tipos de peixe do litoral paranaense, desde moqueca de bagre a ceviche de robalo. O e-book pode ser baixado gratuitamente no site.

Impacto social

Atualmente, Muller colabora com dez comunidades pesqueiras em Guaratuba, Pontal do Paraná, Paranaguá, Guaraqueçaba e Ilha do Cardoso, e atinge diretamente 94 famílias de pescadores. De acordo com o idealizador, o projeto já comercializou 22 toneladas de pescados e gerou R$ 370 mil em receita para as comunidades, em menos de três anos.

A empresa já realizou mais de 5 mil entregas e, atualmente, conta com 275 assinantes. A expectativa é chegar a 1 mil até o final do ano. A iniciativa, que já foi premiada pela Fundação Boticário, prevê também envolver mais comunidades do litoral e levar a distribuição para Morretes e outros municípios da região.

  1. Serviço

www.olhaopeixe.com.br;

Telefone e WhatsApp (41) 9 9152 – 0391;

[email protected];

Instagram: @olhaopeixee.

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